Muletas sufocam recursos próprios de "Alta Estação"
 
Por: Carina Martins (carina@babado.com.br)

Alta Estação estreou cercando-se de muletas por todos os lados: elementos importados de tramas gringas, formato inspirado em Malhação. Tudo para não correr riscos. A estratégia é compreensível - e, no caso da Record, até coerente. Mas será que é necessária? Será que a repetição de vícios alheios faz parte do aprendizado? Será que não são exatamente essas rodinhas de segurança que impedem o desenvolvimento do produto até agora?

A atração tem seus próprios problemas, é óbvio, especialmente no que diz respeito ao elenco, quase 100% composto de atores estreantes e absolutamente despreparados (até aí, isso nunca atrapalhou a irmã global, embora eles nunca tenham exagerado tanto quanto Alta Estação). A questão é que tem também alguns méritos próprios. E esses estão escondidos sob a cortina de fumaça dos recursos "familiares".

Não são poucas as vantagens em potencial da atração como alternativa à novelinha global. Mas esse potencial ainda não vingou. Entre as vantagens de Alta Estação - além de ter um núcleo de personagens menor e de empatia mais fácil - está o fato ter personagens mais crescidinhos, já universitários e, portanto, com um leque de histórias mais abrangente do que o dos meninos de Malhação, que vivem tendo que repetir de ano para continuar na trama. Com uma linha mais tênue entre a adolescência e a vida adulta, é possível fazer opções dramáticas mais ousadas, e atingir também um público mais vasto. Poderia ainda fugir das historinhas mirabolantes que invadem Malhação, como tramas de sabotagens e planos infalíveis à la Cebolinha. Nada disso aconteceu, por enquanto.

Ao contrário, há a insistência em elementos realmente desnecessários. Inspirar-se no ponto de partida de Felicity é uma coisa, mas precisava sugar os detalhes? O fato de Renata ser maníaca por limpeza e Caio ser um aspirante a ator bobão como Monica e Joey de Friends realmente ajuda na composição dos personagens? Na identificação com o público? Essas coisas só servem de obstáculo na construção de uma identidade própria.

O público juvenil é o mais maltratado da TV brasileira. A oferta no segmento é árida. Com a demanda que existe, é verdade que o esforço para agradar nem precisa ser enorme. Basta fazer tudo mais ou menos certo. Isso é uma forma de olhar para o quadro. Outra é ver isso como uma brecha para a experimentação, para a ousadia. Dá para fazer um programa jovem um pouquinho mais moderno. E maduro. Só não dá para esperar que os programas levem uma adolescência inteira para crescer.

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Alta Estação tem um outro trunfo: Lana Rodes. A moça já quase alcançou a fama em duas ocasiões, como Paquita e como candidata do programa Ídolos. E em Alta Estação fica claro que um rosto daquele não foi feito para o anonimato. É tão inexperiente quanto o resto do elenco. Mas sempre foi melhor ser inexperiente e lindo do que só inexperiente. Em terra de cego...